• Boca seca é causada por remédios, diabetes e até depressão

    Isso vai além da sede

Dá para entender porque Hipócrates foi seguido pelos médicos de todo o mundo, até os anos 1800. Desde o século V a.C. , ela afirmava que o corpo tem uma sabedoria própria. Isso explicaria a sincronia do funcionamento orgânico que garante a boa saúde. E desse sistema perfeito nada escapa, nem mesmo a saliva. Quando a boca fica seca, um desequilíbrio orgânico se estabelece: você não só perde a proteção contra cáries, como também prejudica a sua digestão, a fala e ainda abre as portas para doenças sistêmicas e locais.

A expressão boca seca geralmente é a forma subjetiva como as pessoas relatam ao dentista a falta de lubrificação bucal. Porém, entre os especialistas, o termo utilizado para definir esse estado é xerostomia, hipossialia ou hipossalivação —estejam ou não presentes a redução do fluxo ou da quantidade de saliva. Um estudo sobre a prevalência dessa condição no mundo todo concluiu que um em cada quatro pessoas tem o problema, sendo ele mais comum entre os idosos. Os dados foram publicados no periódico Brazilian Dental Journal.

 

Para que serve a saliva?

A saliva tem papel importante no equilíbrio do corpo e possui muitas funções. Uma delas é o auxílio da digestão. Além de ajudar na formação do bolo alimentar, a secreção é composta por enzimas que provocam a degradação do amido (carboidrato), dando início ao processo digestório. A saliva também contém um antiácido que protege a mucosa bucal, bem como anticorpos que evitam a entrada de bactérias no organismo e ainda mantêm lubrificados os dentes e as gengivas. Para quem usa prótese, ela atua como fator de retenção.

 

Por que a boca fica seca

Denise Tibério, presidente da Câmara Técnica de Odontogeriatria do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo), diz que a boca seca tem muitas causas, mas as principais são efeitos colaterais de medicações de uso contínuo e a respiração pela boca, comum em quem tem dificuldade de inspirar e expirar pelo nariz.

Além disso, a radioterapia e a quimioterapia para câncer de boca se destacam, já que afetam as glândulas produtoras da saliva. Veja a seguir as possíveis origens dessa queixa:

 

  • Alterações emocionais (ansiedade e depressão);
  • Doenças crônicas (diabetes, hipertensão etc.);
  • Medicamentos (alguns hipertensivos, diuréticos, antialérgicos, ansiolíticos etc.);
  • Número total de medicamentos (fármacos diferentes usados ao mesmo tempo);
  • Deficiências vitamínicas;
  • Tabagismo;
  • Doenças autoimunes (Síndrome de Sjögren; artrite reumatoide, lúpus).

Quem está mais suscetível ao problema?

A xerostomia é mais comum entre os idosos, especialmente porque, com o envelhecimento, ocorrem modificações naturais na cavidade oral. Além disso, esses indivíduos geralmente integram o grupo dos que fazem uso contínuo e combinado de muitos fármacos. Pessoas que respiram pela boca e pacientes que estejam sob tratamento radioterápico, igualmente, precisam ficar atentos.

 

Como saber se você tem boca seca?

Embora pareça fácil identificar essa condição, muitas pessoas não percebem a redução da saliva e estima-se que, até chegar ao dentista, podem ter perdido metade de sua produção salivar. Os sinais que você pode observar são:

 

  • Sensação de secura ou dor de garganta;
  • Lábios ressecados ou rachados;
  • Pequenas lesões na mucosa da boca;
  • Língua seca, vermelha e dolorosa;
  • Saliva pegajosa, grossa ou espumosa;
  • Pele rachada nos cantos da boca;
  • Mau hálito;
  • Dificuldade para falar;
  • Sensação de paladar alterado;
  • Dificuldade para engolir alimentos, especialmente os secos;
  • Infecção fúngica na boca, como candidíase;
  • Aumento da placa bacteriana, cáries e gengivite;
  • Dificuldade para mastigar e engolir;
  • Desnutrição, especialmente entre os idosos.

 

Quais são as consequências da falta de saliva?

"Além do prejuízo das funções digestiva, protetora contra doenças [locais e do corpo todo], e facilitadora do sistema da fala, o ressecamento da boca, a depender de sua gravidade, leva ao desconforto social", explica Soraya de Azambuja Berti Couto, cirurgiã-dentista e especialista em estomatologia.

A especialista relata que é comum que ocorram alterações no hálito, na forma de falar e até comer, condições que fazem com que a pessoa evite o convívio com amigos e parentes, levando-a ao isolamento.

A hora de procurar ajuda especializada

Pessoas que convivem com problemas crônicos e fazem uso contínuo de medicamentos, já a partir do diagnóstico de suas respectivas doenças, devem ser orientados a procurar um dentista para avaliação e acompanhamento periódico. Isso porque o tratamento da boca seca é mais eficaz quando feito de forma integrada.

As visitas ao dentista devem ser regulares e menos espaçadas, especialmente na idade madura. Todo cirurgião dentista é capaz de identificar o problema e fazer o diagnóstico.

 

O que esperar da consulta

Para definir o diagnóstico, o dentista fará o levantamento do histórico pessoal do paciente, o que inclui informações médicas e sociopsicológicas, e ainda fará o exame clínico, examinando a cavidade oral, o que inclui a prática de técnicas específicas, como a massagem das glândulas salivares.

Exames complementares podem ser solicitados, e incluem a sialometria, que mede o volume de saliva em determinado período de tempo, os testes sanguíneos, que possam mostrar alguma deficiência vitamínica, ou a presença do diabetes, por exemplo.

Caso haja suspeita de doença autoimune, o dentista também poderá sugerir uma biópsia.

 

Como tratar a boca seca

Não existe cura para a xerostomia, mas a depender da gravidade e da causa dela, os tratamentos são variados e ajudam a aliviar o desconforto. Casos simples se resolvem com a melhora na hidratação. Se a origem da queixa for o diabetes, por exemplo, a estratégia será tratar a doença de base com um endocrinologista, com o apoio do dentista.

Para algumas pessoas, mudanças na dieta também serão úteis, e o auxílio de um nutricionista pode acelerar a adoção de hábitos mais saudáveis que abram espaço para o consumo de alimentos estimulantes da mastigação, como a maçã. A recomendação só não vale para os idosos, dado o risco de engasgos e porque podem usar próteses.

Quando o tratamento é medicamentoso, ele visa estimular a glândula salivar. Repositores de saliva são a opção disponível. Eles criam uma "saliva artificial" que traz alívio. Francisco Octávio T. Pacca, mestre e doutor em diagnóstico bucal e estomatologia pela USP (Universidade de São Paulo), cirurgião bucomaxilofacial e estomatologista da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) esclarece que já existem até alguns laboratórios especializados em pacientes com xerostomia, que manipulam esse tipo de medicamento na forma de spray, saliva artificial e cremes dentais que garantem umidade, e a sua manutenção, por períodos prolongados.

Dá para prevenir a boca seca?

Não há muitas formas de prevenção da boca seca porque ela tem causas variadas. Contudo, você pode adotar as seguintes estratégias para aliviar o desconforto e prevenir infecções ou doenças bucais ou sistêmicas.

  • Faça visitas regulares ao dentista. Se você for idoso, reduza o espaço entre uma consulta e outra;
  • Capriche na higiene bucal e não descuide do uso do fio dental;
  • Acostume-se a escovar a língua;
  • Mantenha-se hidratado. A quantidade varia de pessoa para pessoa, mas a sugestão é consumir cerca de 2,5 litros de água ao dia;
  • Evite fumar;
  • Reduza o consumo de cafeína e álcool;
  • Use bálsamo labial.

Fonte: Uol

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